33ª Meditação – O Céu: as recompensas do Padre

“Quem tiver deixado por mim, diz Nosso Senhor, a sua casa, o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos, esse receberá o cêntuplo neste mundo e a vida eterna” (Mt 9,19).
Isto aplica-se diretamente aos seus apóstolos que desejava encorajar, e aplica-se também aos padres. Mas aqui, como sempre, Jesus é o modelo, foi o primeiro na dificuldade e o primeiro na recompensa.
- As alegrias do Salvador na terra e no céu
As dores abundaram na vida de Jesus, mas teve também alegrias. Todos os progressos da redenção, todos os frutos da salvação enchiam-no de alegria. O Evangelho no-lo diz formalmente mais que uma vez: “Jesus exultou e agradeceu ao seu Pai, quando viu as almas simples e humildes que aderiam à fé” (Lc 10,21).
Mais do que num lugar, no entanto, o relato evangélico deixa-nos suspeitar a alegria de Jesus. É feliz por ver as crianças virem ter com Ele. Abraça-as, abençoa-as, sorri-lhes seguramente, e repreende os apóstolos que as afastam (cf. Mt 19,13-15). Aceita participar nas Bodas de Caná, para aí preparar as graças do casamento cristão e para por em relevo o seu poder e a bondade de sua mãe.
Zaqueu e Mateus oferecem um grande banquete, um banquete alegre em agradecimento pela sua conversão. Jesus participa e une-se indubitavelmente à alegria tão louvável dos seus hóspedes (cf. Lc 5,29).
Alegra-se quando converte pecadores. Não disse que haveria uma alegria imensa no céu quando os pecadores voltassem para Deus? (cf. Lc 15,7).
Alegra-se com a ressurreição de Lázaro. Dá graças por isso ao Pai. Participa no banquete que nesta ocasião oferece Simão de Betânia (cf. Jo 12,2).
Alegra-se depois da instituição da Eucaristia. Nas efusões do seu Coração sacerdotal, recomenda aos seus apóstolos a união entre eles e com Ele. Recorda-lhes como o seu Pai e Ele os amam ternamente e acrescenta: “Digo-vos isto para que participeis na minha alegria e para que os vossos corações dela estejam cheios: Haec locutus sum vobis ut gaudium meum in vobis sit et gaudium vestrum impleatur” (Jo 15,11).
Portanto, Jesus teve as suas alegrias sobre a terra, mas a sua grande alegria está no céu. Dá-nos disso uma ideia no dia da sua transfiguração. Nela entra plenamente no dia da Ascensão. Vai sentar-se à direita do seu Pai e faz entrar para sempre a sua humanidade santa nas alegrias inebriantes do triunfo e da visão beatífica: Ipsi gloria et imperium in saecula saeculorum (Ap 1,6).
- O padre também tem as suas alegrias na terra
A maior alegria é subir todos os dias ao santo altar, onde se encontra na divina presença e envolvido pelo coro dos céus. Aí ele possui Jesus. Se é fervoroso, usufrui do antegozo do céu, recebe na sua alma torrentes de luz, de caridade, de consolação e de salvação.
Se é o filho de Deus, se vive no espírito de fé, é todo o dia que a graça sacramental do sacerdócio e dos dons do Espírito Santo agem nele, como uma fonte inesgotável: Fons aquae salientis in vitam aeternam (Jo 4,14). E os frutos do Espírito Santo não são a alegria, a paz e a caridade?
Que alegria é para o sacerdote ver as almas avançar na virtude! São João escreve na sua segunda epístola: “Eu experimento uma alegria profunda vendo as almas caminhar na verdade”. Quanto mais o padre amar Deus e às almas, mais sentirá esta alegria totalmente sobrenatural.
Que consolação também para o padre ver as almas das crianças permanecerem na sua ternura e os adolescentes conservarem a inocência dos primeiros dias!
Mas a conversão dos pecadores, o regresso das almas a Deus é uma recompensa mais sensível ainda para o padre. Alegra-se então como o Pai do filho pródigo, como o pastor que encontrou a ovelha desgarrada. Foi uma morte que reconduziu à vida. Foi um infeliz que retirou do fogo (São Judas, 23).
A gratidão das almas é também o salário do padre. Há almas tão felizes pela sua conversão, como era Maria Madalena.
Todas estas coisas fazem parte do cêntuplo prometido por Nosso Senhor àqueles que renunciaram por causa dele às coisas da terra. Receberão o cêntuplo, porque os bens espirituais ultrapassam os bens materiais. Terão mesmo, de algum modo, o cêntuplo dos bens terrestres que deixaram, porque encontrarão almas generosas e reconhecidas que os ajudarão; e se são religiosos, encontrarão irmãos e casas.
- As alegrias do padre no céu
Mas o que vale mais do que o cêntuplo dos bens terrestres, é o céu, é a vida eterna. É a vida com Deus, a posse de Deus. Isso vale mais do que todas as honras, do que todas as riquezas, do que todas as alegrias.
Os padres e os religiosos possuirão Deus e possui-lo-ão mais intimamente que os simples fiéis. Foi a eles como aos apóstolos que Nosso Senhor disse: “Vós que deixastes tudo por minha causa, sentar-vos-eis sobre tronos para julgar os outros homens” (Lc 22,29-30).
A vossa glória, ó padres, será em proporção das vossas renúncias. Haverá para vós como um paraíso especial, uma união maior com o Salvador, um cêntuplo no céu, como tivestes um cêntuplo sobre a terra.
Os Padres da Igreja e os doutores não hesitam em aplicar esta promessa de Nosso Senhor aos padres e aos religiosos.
Julgarão o mundo, diz São Gregório, porque lhe serão superiores pelo seu desapego; porque planam como águias na contemplação do céu e no desprezo da terra; porque são os mestres e os doutores da verdade e que terão de julgar se o mundo viveu segundo a sua doutrina; porque tendo sido julgados pelo mundo e desprezados pelos insensatos, julgarão por sua vez a loucura do mundo (Mor., 26).
Ó padres, como esta promessa é estimulante! Vós sereis no céu amigos especiais do Salvador, amigos íntimos. Vivereis mais próximos d’Ele que o comum dos eleitos, se verdadeiramente tiverdes vivido como padres sobre a terra. Que mais poderoso estímulo Jesus vos poderia dar?
(Padre Dehon, O Coração Sacerdotal de Jesus).
Com esta edição concluímos a apresentação do livro O Coração Sacerdotal de Jesus do nosso Fundador, Padre Dehon.