CRÔNICAS DO SEMINÁRIO VI

“Perdidos no Morro da Igreja”
“Na velhice nada fica mais leve, mas mais pesado”, dizia Romano Guardini (1923), sacerdote, escritor e teólogo, a um pastor evangélico queixoso (in Bento XVI, “Último Testamento”, Peter Seenwald, p. 34). É possível, fisicamente falando, porém, com certeza também no plano humano-espiritual, como maturidade e testemunho de vida. Digo isso para nossa geração da terceira idade, por exemplo, que guardamos tantas lembranças divertidas e deliciosas dos tempos de Seminário de Corupá, Crissiumal e Rio Negrinho. Aliás, exagero até certo ponto, quem não passou uns 5 a 6 anos no Seminário Sagrado Coração de Jesus de Hansa Humboldt (Corupá), não teve infância seminarística. Belos anos! Tempos memoráveis! Sem internet, sem jogos eletrônicos, sem instagram. Todavia, incrivelmente felizes. Inclusive favorecidos pela extraordinariamente bela natureza da Região. A ondulância maravilhosa da Serra do Mar. O Morro da Igreja (a 15 km do Seminário), o Morro do Boi (formato de chifres), distante 3,3 Km, com quase 1000 metros acima do nível do mar. Sem falar, da hoje conhecida como “Rota das Cachoeiras de Corupá”. Seria injusto esquecer, além das maravilhas da natureza, esquecer o Museu do Seminário e o famoso viveiro, todas obras do saudoso Ir. Luiz Gartner. Havia ainda o Orquidário do Pe. Nestor Welter (meu professor de Inglês). No mais, ninguém daquela época esquece as noites de cinema patrocinado pelo Pe. Francisco Demann (amava o Brasil, falecendo em sua terra natal, a Alemanha). Gostávamos dos filmes culturais sobre a Alemanha que ele conseguia no Consulado Alemão, em Joinville. Mas os maiores sucessos que deixavam os seminaristas quase em êxtase de alegria, de quase mijar nas calças, eram os filmes do “Gordo e do Magro”.
Sempre muito esperados e desejados eram os passeios mensais em grupos. Os seminaristas eram divididos em maiores, médios e menores. Quase sempre aconteciam em propriedades de famílias adredemente escolhidas e avisadas. Normalmente o povo gostava e nos acolhia com alegria. Não se podia dizer que o passeio dos seminaristas trouxesse apreensão ou pânico para os habitantes de Corupá. No fim do dia, na despedida, nos reuníamos para cantar: “Nestes dias um pensamento nos veio perturbar. Neste pé nossas férias não poderão continuar… o senhor merecia ser nomeado nosso titio” (nesta hora, o anfitrião enxugava algumas lágrimas).
Com grande probabilidade, em todos aqueles anos, com a média de 180 seminaristas (Ginásio e Científico), tendo chegado num ano a 230 jovens, alguns episódios seguiriam à margem da normalidade. Entre os quais, este, para o qual solicitei novamente o auxílio do Pe. Chico Alves (formador em Rio Negrinho, hoje). (Um momento, Chico, quero fazer meio minuto de silêncio, porque acaba de falecer Diego Armando Maradona… Para “los hermanos” meio minuto basta…).
Então, vamos lá! Pe. José Francisco Alves com a palavra:
“Deve ter sido em 1966. Como acontecia todos os meses, o Reitor anunciava o passeio mensal. Os seminaristas eram divididos em 4, 5 ou 6 turmas. Cada turma, acompanhada por um dos formadores do seminário, seguia para um determinado lugar de passeio (cachoeira ou outro belo lugar nas redondezas de Corupá). Nosso grupo foi escalar o Morro da Igreja (848 metros de altitude), que fica a 2,38 Km da estação de trem do povoado de Osvaldo Amaral, já no município de São Bento do Sul. Do seminário até Osvaldo Amaral são cerca de 12 Km.
A previsão era escalarmos o pico do Morro da Igreja até ao meio dia. Ao meio dia o Irmão Pedro Brito levaria o almoço, já pronto, até a estação de Osvaldo Amaral, onde almoçaríamos. Depois voltaríamos de caminhão com o Irmão Brito, pela tardinha, pois, a subida do morro é longa e muito cansativa. Tudo ia correndo muito bem. Tomamos a trilha que leva ao Morro da Igreja. O seminarista Daniel Nascimento Lindo, da turma dos maiores, já havia escalado o Morro da Igreja em outra ocasião e conhecia o trajeto. Subimos pela trilha. Tudo correu bem. Paisagem muito linda. Chegamos ao topo pelas onze e meia. Apreciamos a linda paisagem da região. Descansamos e, nos apressamos em descer, pois, já estávamos com fome e o Irmão Brito logo chegaria na estação, com o almoço.
Começamos a descida. Daniel, conhecedor da trilha seguia na frente. O Morro da Igreja é formado por dois picos. A subida é pelo meio dos dois picos. Ao descermos já quase na base do morro, a trilha se dividia em duas, uma para a direita e outra para a esquerda. Em vez de seguirmos pela esquerda, por onde tínhamos subido, o guia, sem perceber, tomou a trilha da direita, levando-nos para a outro lado do Morro da Igreja. Na base do morro a mata era alta e não se tinha visão da direção e do povoado. De repente, depois de muito caminharmos, percebemos que o caminho era diferente e não víamos mais a estação e o povoado de Osvaldo Amaral. Nenhuma casa, nenhum pasto, só mata densa. Caminhamos, com fome e sede, por toda a tarde, perdidos na mata. Gritamos, chamamos e, ninguém respondia. Descemos pedreiras, barrancos, pirambeiras. Já não aguentando mais de sede, enfim, encontramos uma pequena cachoeira onde tomamos água e descansamos um pouco. A fome era muito grande, mas nada que pudesse matar a fome. Lá pelas quatro horas da tarde encontramos uns pés de banana no meio do mato. Por azar, nenhuma banana madura, apenas uns cachos de bananas verdes. Avançamos e comemos as bananas verdes. Que delícia banana verde, apesar de a boca ficar travando. Continuamos caminhando errantes, mais uma hora de caminhada e avistamos uma propriedade. Nos dirigimos para lá. O senhor da propriedade nos informou que estávamos a cerca de três quilômetros da estação de Osvaldo Amaral e nos indicou a direção certa para seguirmos, pela estrada de roça. Já estávamos cambaleantes de fome e cansaço. O Irmão Brito tinha vindo ao meio dia, com o almoço, esperou cerca de duas horas e, calculando que estávamos perdidos, voltou para o seminário, sem nada poder fazer. Quando enfim chegamos na estação, telefonamos para o seminário. Ir. Brito veio buscar-nos de caminhão. Quase desmaiando de fome e cansaço chegamos no seminário. Fomos direto para o refeitório. Aquela janta foi a melhor janta de todos os tempos.
Nunca mais quisemos escalar o Morro da Igreja, que continua lindo e que atualmente é muito escalado. Suas trilhas estão bem demarcadas, contando com guias treinados!! Observação do Pe. Guido: Pe. Daniel Nascimento Lindo, excelente pessoa, falecido em acidente em Massaranduba/SC, era português.
De lambuja, para refletir: A mãe de Dom João Bosco, com muita sabedoria disse ao mocinho: “Se algum dia você duvidar de sua vocação, então tire a batina. Melhor um camponês pobre que um mau sacerdote”. (in Bento XVI – “Último Testamento”, Peter Seenwald, p. 94).
Pe. Guido José Kievel, scj Lavras, 02/12/2020.