TEMPO DE QUARESMA: CAMINHO RUMO À PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

Iniciamos um novo caminho rumo à Páscoa da Ressurreição: o caminho da Quaresma. Um gesto significativo do primeiro dia da Quaresma é a imposição das cinzas. Não se trata de mero ritualismo, mas de algo bastante profundo, que toca o nosso coração. É um gesto exterior que deve corresponder sempre à sinceridade da alma e à coerência das obras. De que serve rasgar as vestes, se o coração permanece distante do Senhor, isto é, do bem e da justiça? Voltemos para Deus, com o coração sinceramente arrependido, para obter a sua misericórdia (cf. Jl 2,12-18).
Os quarenta dias de Quaresma nos indicam tempo de caminhada, purificação, renovação espiritual. Eis alguns exemplos:
- Quarenta são os anos de viagem do povo judeu do Egito para a Terra prometida, tempo propício para experimentar a fidelidade de Deus (Dt 8,2.4);
- Noé transcorre quarenta dias e quarenta noites na arca, juntamente com a sua família e com os animais que Deus lhe tinha dito que levasse consigo. Além disso, esperam outros quarenta dias, depois do dilúvio, antes de tocar a terra firme, salva da destruição (cf. Gn 7, 4.12; 8,6);
- Quarenta dias e quarenta noites Moisés permaneceu no Monte Sinai, na presença do Senhor (cf. Ex 24,18);
- Os quarenta dias e as quarenta noites em que o profeta Elias, fortificado pelo pão assado e pela água, chegou ao Monte de Deus, o Horeb (cf. 1Rs 19,8);
- Os quarenta dias em que o profeta Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive (cf. Jn 3,4);
- Quarenta são também os anos dos reinos de Saul (cf. At 13, 21), de David (cf. 2 Sm 5, 4-5) e de Salomão (cf. 1 Rs 11, 41), os três primeiros reis de Israel;
- O próprio Jesus passou quarenta dias no deserto, lutando contra as tentações (cf. Mc 1,13). Durante quarenta dias, Jesus ressuscitado instrui os seus discípulos, antes de subir ao Céu e enviar o Espírito Santo (cf. At 1, 3).
Temos também as práticas externas da quaresma. Elas são como armas para lutar contra o pecado: Oração, Jejum e Esmola.
A Oração, neste tempo quaresmal, remete especialmente à Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para vivê-la quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração. A escuta atenta para com Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de nossa fé. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de fato, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência, encaminhamos, simplesmente, os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Na oração, encontramos tempo para Deus, para saber que “as suas palavras não passarão” (cf. Mc 13, 31). A oração nos abre para a esperança da Vida Eterna. Santo Agostinho diz que o jejum e a esmola são “as duas asas da oração” que nos permitem chegar até Deus.
O Jejum – é verdade que hoje há jejum de muitas modalidades: por motivos de medicina, estética e outros. Isso é bom. Entretanto, não basta para o homem, pois o seu fim continua sendo o seu próprio “eu”. Não o liberta de si próprio, mas novamente existe só para ele mesmo. O apelo ao jejum proposto no tempo da quaresma é um apelo às boas ações que devemos praticar. Um homem inteiramente saciado, que não sente mais fome nenhuma, torna-se cego e surdo. Ele é incapaz de ver um faminto e de ouvir o seu grito de fome. Nós não conhecemos a dor da fome. Basta recordar o incômodo que nos causa termos que jejuar 12 ou 24 horas para fazer um exame no dia seguinte. Talvez o jejum desta quaresma nos ajude a meditar de fato sobre a dor de Cristo na Cruz: “Tenho sede!”. Essa dor que hoje se manifesta no pobre faminto: “Tenho fome!”.
A Esmola praticada na quaresma ajuda a superar a tentação do ter, da cobiça, do dinheiro, que tira a primazia de Deus na nossa vida. A ambição provoca violência, prevaricação e morte. Por isso, a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade da partilha. A idolatria dos bens nos afasta do outro, nos torna infelizes, engana, ilude e coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender que Deus é bom se o coração está cheio de si e dos próprios projetos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: “Minha alma, tens uma quantidade de bens em reserva para muitos anos…” “Insensato, nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma…” (Lc 12, 19-20). A esmola nos ajude a superar essa tentadora ilusão. Aprendamos da parábola da viúva que, da sua pobreza, lança no tesouro do templo “tudo o que possuía para viver” (Mc 12, 44). Esta viúva dá a Deus não o que lhe sobra (supérfluo), não só o que tem como, mas, sobretudo, aquilo que é; ela se entrega totalmente ao Senhor.
Animados por um forte compromisso de oração, decididos a um esforço maior de penitência, de jejum e de atenção carinhosa para com os irmãos (esmola), caminhemos rumo à Páscoa, acompanhados pela Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de cada autêntico discípulo de Cristo.
Leandro dos Santos
(Comunidade Dehoniana da Paróquia/Santuário São Judas Tadeu, em São Paulo).